Quem tem medo do Tê-Cê-Cê?

Os últimos meses se resumiram a litros e mais litros de Coca-Cola avidamente consumidos, seguidos por doses semanais de brigadeiro-da-depressão que, graças a Deus, era devorado em grande parte pelos amigos que apareciam em visitas ocasionais – assim como a nossa nem-tão-querida companheira, a Dona Gastrite Nervosa, que vez em quando dava o ar de sua sem-graça presença. Teve também o exílio social (e se duvidar, moral também), além, é claro, do óbvio: muito (preste atenção na ênfase ao muito) desespero, chororô, pânico, vontade de morrer, vontade de chutar tudo para o alto – vontades, vontades, vontades.

panic

Mas não morri, nem enlouqueci. Faturei alguns problemas de saúde passageiros e uma olheira que não quer clarear.

E terminei porque tinha que terminar, era tudo ou nada, “do or die”. E eu sei que sempre carregarei essa sensação podre e completamente dispensável de que eu poderia ter feito melhor. Porque o descontentamento humano é um biscate; está sempre por perto, sempre à espreita. Quando você menos espera, ele está ao seu lado, com a mesma e velha ladainha – a ladainha que você tem caído desde o momento em que levou uma tapa no bumbum, após ter saído do útero da sua mãe. E as hipóteses aparecem em loop infinito: Se… se… se… Se deixar, vão te perturbar da hora que você acorda a hora que você fecha os olhos e tenta dormir.

Descontentamento a parte, o “te-cê-cê” é primo distante da tragédia grega.

Acontece que ser o filho exemplar, o aluno nota dez, que passa em primeiro lugar no vestibular e tem o rendimento coroado por notas azuis, cheio de conhecimento geral para dar e vender não te prepara para o derradeiro fim – que nem é fim de verdade (na verdade ele é o ponta-pé para outras preocupações – a vida adulta, a vida “real”, sendo a principal delas).

A minha, a nossa sorte é que todo mundo é obrigado a fazer esse frente-a-frente com Gaby com o Big T, mais cedo ou mais tarde, metaforicamente ou não. Porque o “tê-cê-cê” é, na verdade, bem parecido com a vida – na melhor ou na pior das hipóteses, nunca estamos sozinhos no nosso desespero. E se você algum dia passar por isso, ou por situação pior, não tema em correr para as redes sociais: lá você encontrará o consolo que precisa, na terra que nos une na nossa suposta solidão. Se eu sobrevivi, certamente foi com a ajuda moral alheia.

Hmm, I get by, with a little help from my friends.
Hmm, I’m gonna try, with a little help from my friends.

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