A human-idade das trevas

Quando as notícias dos ataques em Paris – e logo depois, a do terremoto seguido de alerta de tsunami no Japão – começaram a pipocar pela tuítosfera, senti um súbito mal estar, e a medida que a situação foi se agravando e as informações a respeito foram sendo reportadas na internet e na TV, eu me vi sendo levada por uma avalanche chamada ansiedade, que crescia a cada minuto.

Precisava estudar pra um exame importante, mas não consegui. Precisava trabalhar, mas essa tarefa se mostrou praticamente impossível de fazer, e dividindo a atenção entre a TV, a tela do computador e o celular, fui acompanhando o desenrolar de tudo. Entretanto, o sentimento de impotência ao assistir só piorava, o que me levou a recorrer a única coisa que eu sei que nunca falha: a oração.

Não sou particularmente religiosa, mas tenho fé e busquei orientação primeiramente nas palavras do Evangelho segundo o Espiritismo. Me concentrei, abri o livro “aleatoriamente” e me deparei exatamente num capítulo sobre a força e a importância da prece, só para me certificar que não há coincidências nessa vida. Depois passei vários instantes mentalizando e vibrando muita luz para essa humanidade que parece viver em tempos de trevas.

Fonte: punkpearls.wordpress.com

Com a melhora do mal estar físico, pensei que eu também poderia utilizar outro instrumento para ajudar essas pessoas tão fisicamente distantes de mim, e fui pra plataforma que eu tenho maior intimidade: o Twitter.

Como moderadora de um fã-site com alcance mundial através das redes sociais, senti que deveria expressar o quanto eu lamentava sobre os presentes acontecimentos em Paris e Japão, afinal de contas, eram os mais recentes. Dividi informação que eu considerei relevante, sempre com muito cuidado pra não espalhar notícia falsa ou gerar mais pânico, e expressei os meus mais sinceros sentimentos sobre tudo isso. Mas como não há nada que a gente faça na internet que não seja capaz de gerar consternação e incômodo pra algumas pessoas, surgiram aqui e ali comentários do gênero: “tragédia x em tal local é tão importante quanto isso, mas não vejo você comentando” e “acontecimento y aconteceu em local z e você aí, falando de x.” Daí, eu só consegui pensar no tamanho da mesquinharia do ser humano em querer medir tragédia em face de tudo isso e achar que existe uma escala de relevância a ser levada em consideração, ou de pensar que porque eu escolho falar publicamente de algo que chama a minha atenção, eu desprezo as demais situações.

Eu concordo que é importante estar atento a tudo o que acontece ao nosso redor, e não é preciso nada além de um par de olhos e uma cabeça pensante pra se dar conta que o mundo todo está em frangalhos. De fato, há muito pelo que se compadecer mas, por favor, não seja um terrorista emocional na vida dos outros. Permita que o próximo ore, medite, vibre coisas boas – e o mais importante – faça coisas boas em prol de quem ele quiser, pra onde ele quiser – seja lá Paris, Japão, Mariana, a humanidade, ou o vizinho da casa ao lado. Enquanto isso, faça a sua parte e se preocupe com o que você faz ou deixa de fazer. Concentre-se na forma que você contribui para que as coisas possam melhorar. Não use isso como desculpa para atacar os outros sob pretensão de boas intenções, pois como diz o ditado, de boas intenções o inferno está cheio. Pare de desejar o mal a quem faz o bem, e mais ainda a quem faz o mal. Tenha compaixão até de quem aparenta não ser merecedor. Talvez isso não traga a suposta justiça “imediata” dos homens, ou o que você considera como justiça divina, mas te garanto que trará melhores frutos para sua própria vida.

Escolha usar a sua voz, o seu tempo e a sua boa vontade pra fazer coisas que realmente importam e que realmente fazem a diferença. Você pode sim fazer algo pra trazer conforto aos que estão em Paris, a alguém que mora lá, ou a quem tem o sonho de conhecer a cidade/país e sabe que não existe mais garantia de transitar livremente em paz e segurança por lá. Existe uma maneira de você se posicionar sobre a situação de Mariana em Minas Gerais, de trazer à luz informações pouco divulgadas na mídia e na internet, de esclarecer e mostrar solidariedade aos irmãos da sua pátria sem ferir quem não está fazendo isso.

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Você pode alcançar o mundo de maneira significante e produtiva, mas eu garanto que trocar farpa pela internet por conta de tragédia, proliferar o rancor, estimular a raiva, o pânico, a ansiedade e a lamúria não vai configurar, sob hipótese alguma, como uma dessas ferramentas. O que as pessoas precisam neste exato momento é de uma faísca de esperança pra encontrar razão pra seguir vivendo em um mundo cada vez mais corrompido pelas diferenças e pelo ódio.

“O amor é a única forma de resgatar a humanidade de todas as doenças” –  via brainpickings

Só através do amor, respeito e tolerância é que teremos alguma chance contra doses de sextas-feiras 13 como essa. Só assim teremos alguma chance de eliminar a human-idade das trevas.

A Menina do Cabelo Laranja e a História do “Por Que Você Fez Isso?”

Ontem à tarde, minutos antes de eu sair do salão de beleza, após ter embarcado em um capítulo exclusivo das minhas aventuras capilares, a cabelereira me avisou: “Se prepare – assim como tem gente que vai amar, existirão aqueles que vão odiar.”

Considerei a gentil e sincera advertência dela um pequeno exagero – com três anos alternando o estilo do meu pixie cut, que por algum motivo ainda é um corte “polêmico”, já que ainda existe muita mente presa aos pré-conceitos de gênero: Menino brinca com carrinho, veste azul, e tem cabelo curto. Menina brinca de boneca, tem cabelo longo, e veste cor de rosa; achava que já tinha vivido a minha cota de extremos. Então era meio óbvio que eu estava prestes a ser provada o contrário.

Nessas últimas 24 horas eu encarei as mais diversas reações – Algumas bem animadoras (mesmo!), e outras, nem tanto. Fui fitada silenciosamente por estranhos, oras por admiração, oras por reprovação. Nada que eu já não tivesse experienciado e tirado de letra.

Exceto, é claro, o incômodo “Por que você fez isso?

O MAL DO “POR QUE VOCÊ FEZ ISSO?

De maneira geral, essa é uma indagação qualquer, que não machuca e nem causa mágoa se a pergunta é feita com singela e legítima curiosidade.  Entretanto, o “Por Que  Você Fez Isso” ao qual eu me refiro aqui é aquele de conotação negativa, onde o interlocutor te ataca de maneira agressiva, e destila todo o seu repúdio, a sua reprovação, e indignação.

“POR QUE VOCÊ FEZ ISSO?” eles grunhem, com olhos arregalados, cheios de ultraje, enquanto questionam a sua sanidade. 

EU FIZ ISSO PORQUE…

Daí eu pergunto a vocês: partindo do princípio de que não existe nenhuma razão obscura, filosófica, emocional, ou transcendental, qual seria o motivo pelo qual as pessoas fazem o que fazem?

Porque elas querem, oras!

Eu fiquei ruiva cabelo cor de cobre claro super intenso cosplay de laranja letreiro de neon com pôr-do-sol Manauara – que, a propósito, só eu posso fazer piadas a respeito porque eu quis, porque deu vontade; porque deu na telha; porque eu tenho liberdade pra fazer o que eu quiser, quando eu quiser, já que eu sou dona do meu próprio nariz e não preciso consultar a sociedade todas as vezes que eu decidir fazer exatamente o que eu quero.

Precisa ter mais motivos além do simples querer?

Eis o porquê.

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NÃO SOU FEITA DE PEDRA, MAS…

Sensível e emotiva, quase deixei que esse julgamento todo tirasse o brilho da novidade. Depois cheguei a conclusão, com a colaboração de umas boas almas, que não vale a pena.  E se antes restavam dúvidas, que hoje fique bem claro: eu definitivamente não nasci para fazer parte do lugar-comum.

O novo provoca, agride, choca, surpreende, tira o fôlego, e às vezes é capaz de causar excitação, ou até mesmo desconforto. Eu não gosto de ser o centro das atenções, de causar controvérsia, de ser motivo de falatório, mas sou do partido que prefere provocar, agredir, chocar, surpreender, tirar o fôlego, excitar, ou causar desconforto, do que se limitar ao convencional, ao entediante, ou seja lá o que for que você tem dentro do seu conceito de “familiar”.

E, antes que eu me esqueça, guarde o seu achismo negativo para si, que eu não sou obrigada. Com tanta coisa errada no mundo, não venha desperdiçar o meu e o seu tempo polemizando o meu cabelo. E caso você precise de receita pra lidar com a sua afronta, não precisa nem ir ao médico.

No famoso linguajar tupiniquim, amiga (o), supera e aceita, que dói menos.

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Quem tem medo do Tê-Cê-Cê?

Os últimos meses se resumiram a litros e mais litros de Coca-Cola avidamente consumidos, seguidos por doses semanais de brigadeiro-da-depressão que, graças a Deus, era devorado em grande parte pelos amigos que apareciam em visitas ocasionais – assim como a nossa nem-tão-querida companheira, a Dona Gastrite Nervosa, que vez em quando dava o ar de sua sem-graça presença. Teve também o exílio social (e se duvidar, moral também), além, é claro, do óbvio: muito (preste atenção na ênfase ao muito) desespero, chororô, pânico, vontade de morrer, vontade de chutar tudo para o alto – vontades, vontades, vontades.

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Mas não morri, nem enlouqueci. Faturei alguns problemas de saúde passageiros e uma olheira que não quer clarear.

E terminei porque tinha que terminar, era tudo ou nada, “do or die”. E eu sei que sempre carregarei essa sensação podre e completamente dispensável de que eu poderia ter feito melhor. Porque o descontentamento humano é um biscate; está sempre por perto, sempre à espreita. Quando você menos espera, ele está ao seu lado, com a mesma e velha ladainha – a ladainha que você tem caído desde o momento em que levou uma tapa no bumbum, após ter saído do útero da sua mãe. E as hipóteses aparecem em loop infinito: Se… se… se… Se deixar, vão te perturbar da hora que você acorda a hora que você fecha os olhos e tenta dormir.

Descontentamento a parte, o “te-cê-cê” é primo distante da tragédia grega.

Acontece que ser o filho exemplar, o aluno nota dez, que passa em primeiro lugar no vestibular e tem o rendimento coroado por notas azuis, cheio de conhecimento geral para dar e vender não te prepara para o derradeiro fim – que nem é fim de verdade (na verdade ele é o ponta-pé para outras preocupações – a vida adulta, a vida “real”, sendo a principal delas).

A minha, a nossa sorte é que todo mundo é obrigado a fazer esse frente-a-frente com Gaby com o Big T, mais cedo ou mais tarde, metaforicamente ou não. Porque o “tê-cê-cê” é, na verdade, bem parecido com a vida – na melhor ou na pior das hipóteses, nunca estamos sozinhos no nosso desespero. E se você algum dia passar por isso, ou por situação pior, não tema em correr para as redes sociais: lá você encontrará o consolo que precisa, na terra que nos une na nossa suposta solidão. Se eu sobrevivi, certamente foi com a ajuda moral alheia.

Hmm, I get by, with a little help from my friends.
Hmm, I’m gonna try, with a little help from my friends.