A Menina do Cabelo Laranja e a História do “Por Que Você Fez Isso?”

Ontem à tarde, minutos antes de eu sair do salão de beleza, após ter embarcado em um capítulo exclusivo das minhas aventuras capilares, a cabelereira me avisou: “Se prepare – assim como tem gente que vai amar, existirão aqueles que vão odiar.”

Considerei a gentil e sincera advertência dela um pequeno exagero – com três anos alternando o estilo do meu pixie cut, que por algum motivo ainda é um corte “polêmico”, já que ainda existe muita mente presa aos pré-conceitos de gênero: Menino brinca com carrinho, veste azul, e tem cabelo curto. Menina brinca de boneca, tem cabelo longo, e veste cor de rosa; achava que já tinha vivido a minha cota de extremos. Então era meio óbvio que eu estava prestes a ser provada o contrário.

Nessas últimas 24 horas eu encarei as mais diversas reações – Algumas bem animadoras (mesmo!), e outras, nem tanto. Fui fitada silenciosamente por estranhos, oras por admiração, oras por reprovação. Nada que eu já não tivesse experienciado e tirado de letra.

Exceto, é claro, o incômodo “Por que você fez isso?

O MAL DO “POR QUE VOCÊ FEZ ISSO?

De maneira geral, essa é uma indagação qualquer, que não machuca e nem causa mágoa se a pergunta é feita com singela e legítima curiosidade.  Entretanto, o “Por Que  Você Fez Isso” ao qual eu me refiro aqui é aquele de conotação negativa, onde o interlocutor te ataca de maneira agressiva, e destila todo o seu repúdio, a sua reprovação, e indignação.

“POR QUE VOCÊ FEZ ISSO?” eles grunhem, com olhos arregalados, cheios de ultraje, enquanto questionam a sua sanidade. 

EU FIZ ISSO PORQUE…

Daí eu pergunto a vocês: partindo do princípio de que não existe nenhuma razão obscura, filosófica, emocional, ou transcendental, qual seria o motivo pelo qual as pessoas fazem o que fazem?

Porque elas querem, oras!

Eu fiquei ruiva cabelo cor de cobre claro super intenso cosplay de laranja letreiro de neon com pôr-do-sol Manauara – que, a propósito, só eu posso fazer piadas a respeito porque eu quis, porque deu vontade; porque deu na telha; porque eu tenho liberdade pra fazer o que eu quiser, quando eu quiser, já que eu sou dona do meu próprio nariz e não preciso consultar a sociedade todas as vezes que eu decidir fazer exatamente o que eu quero.

Precisa ter mais motivos além do simples querer?

Eis o porquê.

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NÃO SOU FEITA DE PEDRA, MAS…

Sensível e emotiva, quase deixei que esse julgamento todo tirasse o brilho da novidade. Depois cheguei a conclusão, com a colaboração de umas boas almas, que não vale a pena.  E se antes restavam dúvidas, que hoje fique bem claro: eu definitivamente não nasci para fazer parte do lugar-comum.

O novo provoca, agride, choca, surpreende, tira o fôlego, e às vezes é capaz de causar excitação, ou até mesmo desconforto. Eu não gosto de ser o centro das atenções, de causar controvérsia, de ser motivo de falatório, mas sou do partido que prefere provocar, agredir, chocar, surpreender, tirar o fôlego, excitar, ou causar desconforto, do que se limitar ao convencional, ao entediante, ou seja lá o que for que você tem dentro do seu conceito de “familiar”.

E, antes que eu me esqueça, guarde o seu achismo negativo para si, que eu não sou obrigada. Com tanta coisa errada no mundo, não venha desperdiçar o meu e o seu tempo polemizando o meu cabelo. E caso você precise de receita pra lidar com a sua afronta, não precisa nem ir ao médico.

No famoso linguajar tupiniquim, amiga (o), supera e aceita, que dói menos.

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Sobre cabelos

   88c989ab91ad3347a11ea74684b4de51Emma Watson. Fonte: thesimplyluxuriouslife.com

Uma certa vez, um quase-namorado me perguntou se eu tinha passado por uma desilusão amorosa muito grande. Quando indaguei o motivo da pergunta, ele apontou para o meu cabelo, que é curtinho estilo pixie, e disse que sabia que mulheres normalmente procuram mudanças radicais quando passam por isso.

Achei engraçado e ao mesmo tempo curioso essa mania de criar mitos acerca das nossas transformações internas e externas enquanto mulheres.

A meu ver, as mulheres procuram mudança porque podem, porque querem, e porque têm autonomia pra isso – independente do motivo. Às vezes é só preguiça eterna de ter que passar horas segurando um secador ou usando uma chapinha; outras é porque deu tédio de olhar pra si com aquela mesma cara de sempre, e porque é mais barato mudar o cabelo do que pagar uma cirurgia plástica; senão, é porque tá de saco cheio de ter que que lidar com a juba diariamente, faça chuva ou sol. Enfim, a lista de pretextos é infinita.

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Eu SEMPRE tive cabelo curto. Dai eu pergunto, como explicar? Assim como tem gente que come chocolate ao leite mas prefere chocolate amargo, eu prefiro cabelo curto.

Conto nos dedos de uma mão só as poucas vezes que eu passei do comprimento médio e quase entrei pro clube dos cabelos compridos. QUASE. O meu hobby era tentar deixar o cabelo crescer para poder correr pro salão de beleza e sair de lá com um corte curto novo. A minha mãe, coitada, me esperava na varanda de casa pra ver o susto que ia levar quando eu avisava que eu ia cortar o cabelo.

Há três anos atrás, quando eu finalmente tomei coragem de correr pro abraço de um corte pixie, eu nem avisei, já cheguei chegando. Eu não pensei se eu tinha um rosto bonito, se eu tinha confiança o suficiente pra me garantir com um corte “de menino”, ou se eu me sentiria menos (ou mais mulher) ao cortá-lo. Só sabia que eu achava lindo, morria de inveja das amigues que levantavam a bandeira do corte pixie, e que eu queria experimentar. O meu único medo era de ficar com cara de bolacha Maria dependendo do resultado final, afinal, não é todo e qualquer cabeleireiro que sabe fazer um corte pixie legal.


Jane Seberg. Fonte: imgkid.com

Pra esta que vos fala, o pixie foi apenas mais um episódio de uma nova aventura capilar. Se desse errado, por pior que fosse, whatever, sabe? Por mais que demore, cabelo sempre cresce.

Não sei dizer se foi o pixie que me deu certa confiança ou se o momento que eu cortei coincidiu com o meu amadurecimento com relação a certas neuras. Hoje em dia eu realmente não sinto necessidade de agradar ninguém com relação a minha aparência – especialmente ao se tratar de cabelos – senão a mim mesma.

Quanto mais houver gente dizendo pra eu deixar o cabelo crescer, mas eu sinto vontade de provocar, bater o pé, e fazer o que EU quero. O quase-namorado tentou fazer isso com um “você cortaria o cabelo se eu te pedisse?” e eu ri, várias e várias vezes. Tá boa, bonito.

E essa atitude, de certa forma, vai de encontro com algo que li em um artigo (escrito por um homem), que diz que mulher de cabelo curto é uma mulher “muito segura de si, que não liga para a opinião dos outros, e que não precisa de atestado pra ser mulher.”

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É um artigo que soa bem lisonjeiro, é verdade, e válido até. Mas fiquei pensando e cheguei a conclusão que também é um pouco injusto com as amigues que tem mais cabelo do que eu.

O que foi traduzido através do meu “pixie” foi uma atitude que já existia previamente em mim, como eu disse anteriormente, mas que pode existir sim em quem escolhe fazer a linha Rapunzel  e nunca deixar de usar o cabelo comprido.

Um corte ou uma coloração ou um alisamento pode ou não ser reflexo disso, mas se não for, no final de dia, é só cabelo, gente. O ideal é ignorar essas generalizações bobas. Lisonjeiro MESMO é respeitar a jornada (e o cabelo) de cada um.

cecy-j-ELLE-Feb-13-Goodwin-11Ginnifer Goodwin. Fonte: elle.com