Sim, eu fiz a bariátrica

Acabou o mistério — se é que tinha um.

Tentei manter isso só entre amigos e familiares e não sai divulgando isso pelos sete cantos do universo por motivos de: medo, medo e medo.

Por que o medo?

Eram muitos, mas vou tentar listar alguns: porque poucas pessoas conhecem a minha história com a balança — um daqueles relacionamentos abusivos e nada amorosos que a gente sustenta por anos até parar de passar perto de uma porque dessa forma você não precisa encarar a cruel realidade; porque tem muita gente por ai achando que bariátrica é o caminho fácil, é a solução do gordo preguiçoso que não é esforçado/não tem força de vontade o suficiente pra conseguir emagrecer e permanecer magro por conta própria; porque a maioria não entende a realidade do gordo, em menor ou maior escala, não entende o que é a gordofobia e forma como isso os afeta; porque às vezes, se o gordo decide não ser mais gordo, é como se ele estivesse traindo o movimento e a luta contra a ditadura da magreza e estivesse cedendo ao universo fit que às vezes parece lavagem cerebral; porque eu tinha medo de admitir que eu mesma tinha certo preconceito com relação a cirurgia.

E como eu poderia fazer as pessoas entenderem os meus porquês se eu mesma tinha me permitido ser influenciada por algumas dessas opiniões externas? Foi preciso me desconstruir.

coisas que eu escutei bastante nos últimos meses antes de eu me operar: “ah, mas você nem é tão gorda.” “você não é gorda, você é linda.” “tá linda, mas se perder uns quilinhos vai ficar maravilhosa.

Pra começo de conversa, eu nem achava que estava tão gorda assim. Achava que o médico iria me mandar dar meia volta e procurar um endócrinologista pra me ajudar, porque eu não me enquadrava nos requisitos pra fazer uma cirurgia bariátrica, e eu ainda tinha a audácia e petulância de falar pra minha mãe que eu não iria engordar propositalmente pra isso porque eu não era nem doida. Mas a verdade é que eu nem precisava.

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Minha primeira ida ao Instituto Victor Dib foi no dia 03 de Maio. Quando passei pela triagem, onde me pesaram e viram minha altura (1,59m), a balança apontou 90,5kg e assim que eu vi aquele número, eu senti uma vontadezinha de morrer.

Na minha cabecinha, eu continuava com os meus 70 e poucos kgs com os quais eu já havia me acostumado. Até as roupas que eu tinha e usava com esse peso ainda cabiam em mim. Como assim eu tinha engordado tanto? Sai da consulta super atordoada e chorei no escurinho do meu quarto por duas noites seguidas tentando assimilar tudo porque eu não estava entendendo nada nem um pouco direito, sabe?!

Admito, eu não me alimentava bem. Tenho paladar infantilizado mesmo. Eu sou super hiper mega seletiva pra comer comida e amava comer besteiras – não dispensava ter pacotinhos de Fandangos e Cheetos no meu armário, bolacha Negresco, e latinhas de refrigerante no frigobar. Raramente dispensava pizza e batata-frita e quando a TPM atacava, sempre saía um prato de brigadeiro que durava uns 3 ou 4 dias dependendo da vontade. Mas continuei sem entender muito bem, porque eu sempre me alimentei assim e não passei a comer mais de tudo isso, não em termos de quantidade, e ainda sim engordei 15 kg em cerca de 3 a 4 meses? Pra emagrecer dois kg era preciso quase que passar fome, mas pra engordar…

E que cabeça era essa que quando emagrecia, não via que tinha emagrecido e que quando engordava, também não percebia isso? Me senti um alien dentro de mim mesma. E que roupas eram essas que eu usava e funcionavam como uma espécie de “jeans viajante” que cabe em qualquer corpo?

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A explicação é que desde Dezembro eu havia parado de usar calça jeans. Passei a usar somente leggings e a legging que cabe numa pessoa que veste 42 é a mesma legging que cabe em uma que veste 48, por exemplo. Os vestidos ficaram mais justos e mais curtos, mas eu não liguei muito. Arranjava uma desculpa e comprava vestidos um pouquinho mais largos. As saias eram todas cintura alta e bem rodadas; a minha cintura, mesmo estando gorda, era “pequena”, e tinha pano pra dar e vender pra cobrir os meus quadris e as coxas. As blusas eram, na maioria, batinhas.

No corpo, as estrias começaram a rasgar nos meus braços, dobrinhas nas costas que não existiam apareceram, mais estrias rasgaram na lateral da barriga, e eu, cega, continuava na saga da negação achando que tava tudo certo.

Pra tirar foto de corpo inteiro era um verdadeiro deus nos acuda. Se fosse foto em grupo, eu sempre tentava me esconder atrás de alguém. Sozinha, tinha sempre um truque pra disfarçar uma coisinha aqui e ali, além de uma edição cuidadosa. Foto espontânea tirada pelos outros? Nem morta! Aos poucos, aquilo ficou muito trabalhoso e eu fui me contentando só com as famigeradas selfies. Depois, nem isso. Detestava o que via no espelho e ainda tinha a cara de pau de negar.

Se eu continuasse assim, onde eu iria parar?

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Em determinada época, em 2015, eu decidi que queria me empoderar e acabar com esse martírio de me odiar por ser gorda e morrer tentando ser magra. Se eu continuasse, acabaria ficando louca, depressiva ou os dois. Ai comecei a não me desgostar tanto, o que também não significava necessariamente que eu me amava, mas pelo menos aquilo parecia ser um passo certo na direção certa. E quando alguém tentava dar a entender que eu “precisava me cuidar” ou perder peso, o meu lado ariano como Lua, Mercúrio e Sol em satanáries aparecia (tá, eu nem sei o que isso significa, mas parece bem relevante pra minha personalidade). Eu ficava louca e já tinha uma pedreira mental pronta pra tacar no sem noção que dissesse isso, porque eu sou bem passivo-agressivazinha que escuta calada e morre por dentro querendo matar alguém. Afinal, quem quer ficar ouvindo esse tipo de coisa? É um saco mesmo. Tem gente que realmente se preocupa com você e com a sua saúde, mas o que tem pra dar e vender de gente que fala só pra azucrinar, não tá no gibi, e a vontade de mandar ir pro raio que os parta é bem forte, eu sei.

Mas o meu empoderamento deu todo errado.

Porque eu não era empoderada.

Não estou dizendo que o empoderamento da mulher gorda não existe — estou falando especificamente sobre mim e como eu fiz isso errado e usei a ideia do empoderamento como ferramenta pra sustentar a minha negação e enterrar a minha cabeça debaixo da terra, porque eu nunca realmente me aceitei do jeito que eu era e continuava infeliz com o meu corpo, entende?

Eu chamava de empoderamento, dava close errado achando que era certo, e o pior de tudo, ainda fazia um desserviço pras manas que realmente são empoderadas e se amam com curvas, dobras e tudo a mais que elas têm direito a ser e ter.

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Mas tá, né? Ai, pra piorar tudo, eu passei a ter problemas ortopédicos nos dois joelhos, porque não basta ter o esquerdo operado (quando eu quase acabei com a minha patela em 2006), tem que romper os ligamentos do joelho direito e descobrir que a patela é rasa, e que tudo isso exigia uma perda de peso urgente.

Pra estar apto a fazer uma bariátrica, é preciso ter o IMC ≥ 40 (obesidade grau III, leia-se, obesidade mórbida) ou IMC ≥ 35 com comorbidades, tais como diabetes (ou pré-diabetes), doenças cardiovasculares, pressão alta, problemas articulares e/ou ortopédicos, etc. O médico fez o cálculo do meu IMC e deu 35,9 — obesidade grau II. Olha eeeeela se fazendo o requisito!

Mas não me comprometi a nada logo de cara porque eu não queria começar algo que eu não pudesse ou quisesse terminar. Peguei os valores, as informações de todos os médicos que eu precisaria passar e na semana seguinte, assisti logo as duas palestras informativas do pré-operatório, que são obrigatórias pra quem se opera pelo IVD. Tudo à nível de informação, sem compromisso.

As palestras foram com uma Nutricionista, uma Nutróloga, uma Endócrino e um Gastro. Quando eu sai de lá, na noite da segunda palestra, já tinha tomado decisão: eu iria fazer a cirurgia sim. Não tive o menor interesse em descobrir onde eu iria parar caso eu não tomasse uma atitude drástica. Eu já tinha tentado de tudo e nada funcionava a longo prazo, então me pareceu mais que sensato fazer isso por mim mesma.

O processo todo do pré-operatório envolveu inúmeras horas em salas de espera, inúmeras consultas e exames, muita boa vontade e paciência, que eu nem sempre tenho mas tive que arranjar. Nem sempre as pessoas conseguem terminar de fazer tudo num espaço de tempo “curto” porque cada um tem uma disponibilidade diferente. Como eu parei de trabalhar e resolvi tirar esse tempo ~livre~ pra me cuidar, consegui me operar no dia 3 de Agosto, completando exatamente 3 meses de pré-operatório.

No próximo post sobre a bariátrica, falarei com um pouco mais de calma sobre esse pré-operatório, os exames que eu fiz e os problemas de saúde que eu descobri, mas vou deixar a listinha de médicos com quem eu tive que passar pra pegar laudo: Psicóloga, Psiquiatra, Nutricionista, Endocrinologista, Angiologista, Pneumologista, Cardiologista, Fisioterapeuta e Anestesista, além do próprio Gastroenterologista. Ou seja, não basta só querer fazer a cirurgia, tem que provar por A + B que você realmente precisa da cirurgia.

E enquanto isso, vou ficando por aqui. O post foi só pra avisar que eu não estou emagrecendo por milagre não e que envolve muito esforço e força de vontade sim.

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Beijos de luz!

 

{Resenha} Onde Cantam os Pássaros

Se você cometesse um erro tão grande no passado que alterasse completamente o rumo da sua vida, como isso influenciaria e informaria as suas escolhas e o modo com o qual você interage com outros seres humanos?

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No primeiro capítulo de “Onde Cantam os Pássaros,” de Evie Wyld, nos deparamos com Jake Whyte — uma Australiana jovem porém reclusa, que escolheu viver em uma velha fazenda em uma ilha na costa da Grã-Bretanha cujo nome não é citado, em companhia de “Cão,” o seu cachorro de estimação, se depara com os restos mortais de uma de suas ovelhas, que morrera durante a noite de forma extremamente violenta. Logo em seguida, ela recebe a visita do vizinho e antigo dono da fazenda onde vive, Don, que aparece para averiguar o ocorrido. Durante a visita, Don tece comentários que ajudam a perceber que há algo no passado dessa mulher alta e forte, com uma história de vida tumultuosa e costas cheias de cicatrizes que, de algum modo, informa o presente dela: o desleixo na sua aparência, o desinteresse nas coisas que podem lhe dar prazer, a relutância em criar qualquer tipo de vínculo com outros moradores da região e a insistência em permanecer somente na companhia de seus animais.

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Como se não bastasse a ameaça que paira sobre a vida do rebanho de suas ovelhas (que Jake acredita ser causada por jovens adolescentes), o suspense psicológico se faz presente através de outros fenômenos que começam a ocorrer: barulhos estranhos dentro e nos arredores da casa de Jake, a sensação de estar sendo observada, além de rumores sobre uma criatura grande e veloz que não parece ser do mesmo porte que os animais encontrados nas redondezas.

Uma certa noite, Jake se depara com um homem bêbado dentro de seu galpão à procura de um lugar pra dormir. Ela consente que ele fique ali temporariamente, mas após diversas circunstâncias, a presença de Lloyd se torna permanente e junto com ele, vamos nos aprofundando pouco a pouco no universo misterioso de Jake Whyte.

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Considerações

Enquanto a história narrada nos capítulos ímpares, situada no presente, progride cronologicamente, seguindo o acontecimento da morte das ovelha, a narração dos capítulos pares se dá em forma de flashback, retrocedendo na vida de Jake capítulo por capítulo, pontuando acontecimentos do seu passado até chegar ao início da adolescência da personagem.

Essa é uma combinação que eu ainda não tinha visto em qualquer outro livro e que torna as coisas mais interessantes, mas vale ressaltar que esses saltos na narrativa não são explicitamente especificados no início de cada capítulo, o que pode causar um pouco de confusão durante a leitura.

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Confesso que tive alguns problemas com a prosa do livro e demorei mais tempo que o normal pra conseguir terminá-lo. Outra ponto é a caracterização de Jake: é preciso fazer uma longa jornada até que os acontecimentos do passado dela comecem a justificar de forma mais clara a pessoa que conhecemos no presente, o que pode causar a impressão de que a personagem seja rasa quando a verdade é exatamente o oposto, e a responsabilidade de chegar ao fundo da questão acaba sendo do leitor. Eu consegui encontrar momentos interessantes o suficiente pra me levar até o final, que compensaram pelas horas que tive vontade de fechar o livro e não ler mais, mas entendo quem queira desistir no meio do caminho.

Alguns mistérios da história estão mergulhados em ambiguidade, incluindo o final e isso pode ou não ser um fato negativo, dependendo do ponto de vista de quem lê. No meu caso, deu vontade de ler o livro novamente pra ver com qual perspectiva eu enxergaria os acontecimentos, então pra mim isso é um ponto positivo.

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Sobre a edição do livro

Tenho um segredo pra contar: nutro o péssimo hábito de julgar livros pelas capas. Sim, é verdade, eu faço isso. Poucas coisas enchem tanto os meus olhos como uma edição linda de um livro, com diagramação bonita e uma capa digna. Livros publicados em edições com capas ~mais ou menos~ ou duvidosas, eu normalmente deixo pra ler no Kindle.

Eu não havia ouvido falar do livro e não tinha lido resenhas sobre ele, mas quando bati o meu olho nessa edição, que é a primeira de Onde Cantam os Pássaros, publicada pela DarkSide Books, senti como se tivesse ouvido um coral de anjos cantando. Eita coisa linda!

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A capa parece uma colagem com imagens sobrepostas ao fundo rosa choque e o material que envolve a capa dura parece um pouquinho com camurça, pois é bem macio. A borda das folhas são pintadas de preto, o que cria a ilusão de que as próprias páginas sejam pretas. A diagramação e acabamento por dentro também não deixam a desejar.

Fico feliz ao perceber o cuidado e esmero que algumas editoras brasileiras como a Darkside têm ao criar edições dignas de colecionadores, deixando as edições gringas no chinelo.

Ficha Técnica

Título Original: All the Birds, Singing | Autor (a): Evie Wyld | Tradução: Leandro Durazzo | Editora: Darkside Books | Edição: 2015 | Número de Páginas: 240

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Classificação: 03/05

{TAG} Disney

Tem gente que diz que milagre não acontece, mas postar duas vezes num espaço de menos de 72 horas aqui no blog, ainda por cima trazendo vídeo, equivale a um semi-milagre e é algo bem extraordinário SIM (não deveria ser, mas shiiiiiiiu, let’s not even go there).

Acontece é que ontem à noite eu gravei esse vídeo e logo em seguida eu descobri que I HAVE NO CHILLS porque o faniquito bateu forte pra querer subir o bichinho pro youtube o mais rápido possível. Dai deu nisso. Então hoje teremos:

TAG DISNEEEEEEEEEEY!

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Uma tag muito apropriada pra quem é Disnéfila/doida da Disney/ Disneymaníaca/ Disney fanatic. Dá o play pra conferir, deixa as suas impressões nos comentários, clica no subscribe pra continuar acompanhando “dipertin” o canal e vem me amar.

{TAG} Títulos literários

Olá, pessoal! Passando para avisar que tem vídeo novo no canal onde eu respondo a tag de títulos literários. Confiram!

Limbo

Oi.

Ainda existo.

O blog ainda existe.

Entretanto, me encontro presa em um limbo blogosférico e não sei como sair dele.

Me ajudem?

Faça o que for, mas faça com amor.

9-1

“Eu já trabalhei em uma loja de CDS, em uma cafeteria, arquivei papelada em um escritório, e amei fazer tudo isso.”

Inspiração do mês: Brave, da Sara Bareilles

Me tornei fã das músicas da Sara Bareilles desde o dia em que entrei em uma sala de cinema nos idos de 2008 e escutei “Love Song”, o primeiro single do seu primeiro álbum, Little Voice. Desde então, fui hipnotizada pela voz, sensibilidade e inteligência das músicas compostas pela Sara. Daí, há alguns dias atrás, li na página do Facebook da cantora que o novo álbum dela está em processo de masterização e me animei logo – finalmente!

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