Por que a gente acredita nas mentiras que o mundo conta?

Ontem, enquanto eu respondia uma série de perguntas no ask.fm do (futuro) fã-site que eu administro, me deparei com um pedido de ajuda enviado anonimamente. Nele, a pessoa de 22 anos narrava que estava finalizando o segundo ano de faculdade, mas que se sentia atraída por uma área completamente diferente a que está cursando atualmente, e que o seu maior conflito é que a pessoa se acha muito velha pra trocar de graduação e começar tudo outra vez.

Fonte: survivor-org.wikia.com

Confesso que o meu primeiro instinto foi reproduzir o que foi martelado na minha cabeça há muito tempo atrás e que muita gente ousa chamar de bom senso: termine o seu curso, porque possivelmente te garantirá um emprego com renda fixa, e depois tente descobrir quais são as suas paixões de verdade. Depois, deletei essa abobrinha e tentei dar uma resposta mais digna e menos robótica; não conseguiria dormir em paz se tivesse feito algo diferente.

Enquanto elaborava uma resposta mais sincera pro pedido de ajuda, lembrei do meu primeiro dia de faculdade, há quase dez anos atrás. Lembrei da ansiedade e da agonia de saber que eu finalmente eu estava saindo da zona de conforto que tinha sido estudar na mesma escola por 13/14 anos da minha vida; lembrei das expectativas que eu estava prestes a encarar – as minhas e as dos outros; lembrei do pânico de saber que eu estava indo rumo a um caminho que eu não tinha sonhado pra mim; e lembrei da surpresa de, ao chegar lá, numa sala lotada com quase cinquenta alunos, descobrir que havia gente de todo tipo – gente jovem como eu, confusa sobre o que fazer da vida, na dúvida sobre a escolha que tinha feito; gente jovem como eu, mas que parecia ter nascido sabendo que queria aquilo pra si; gente que já havia tentado e estava tentando outra vez; gente com experiência, que já havia sucedido e que estava a procura de novos horizontes; e, principalmente, gente de todas as idades.

Daí eu me dei conta de que a pessoa anônima de 22 anos sou eu.

Como é que pode alguém que está na plenitude dos seus vinte e poucos anos se achar velho demais pra qualquer coisa? Qual é o problema de chegar em um certo ponto da vida, seja esse aos 20 ou aos 50, e descobrir que aquilo que você tinha escolhido pra si não é o que te faz feliz? Onde é que está escrito que as nossas escolhas, especialmente as que fazemos enquanto somos jovens adultos pressionados a mostrar que sabemos o que queremos, são permanentes? E, afinal, existe alguma coisa nessa vida que seja permanente? Como é que a gente tem coragem de acreditar nessas mentiras que todo mundo conta; nas mentiras que nós insistimos em tomar como verdade pra si e reproduzir isso para os que estão passando pelos mesmos conflitos que um dia nós já tivemos que lidar ou que ainda estamos lidando?

Como é que eu me permiti chegar a esse ponto?

Eu sei que não ter todas as respostas do universo ou que só saber pra onde você foi e não ter certeza de onde quer parar não te torna menos capaz ou inferior aos outros. Mas se eu consigo respeitar e aceitar isso para os outros, como é que não consigo tomar essa verdade pra mim? Por que eu sinto vergonha de reencontrar colegas ou professores de faculdade e admitir que eu não segui carreira, que eu trabalho em uma área completamente diferente da qual eu estudei e fui preparada, e que apesar dos esforços, eu também era (ainda sou) alguém que não sabia aonde queria chegar? Como é que a gente se paralisa diante das nossas próprias expectativas, mata os nossos sonhos, e se contenta com o pouco que tem como se isso fosse a única saída?


Fonte: islifegood.tumblr.com

O meu melhor conselho para o anônimo que está passando por isso é: não faça como eu.

Se permita a tudo. Se quiser trancar o seu curso e experimentar outro, faça isso. E se descobrir que não era o que você esperava ou o que você queria, não tem problema – não existe limite de tentativas pra tentar descobrir o caminho que vai te trazer mais satisfação pessoal. A oportunidade é um presente, e não há erro tão grande que não possa ser desfeito. Não acredite nas mentiras que o mundo te conta, não tome elas como verdade para si. Vai, e seja feliz.

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2 thoughts on “Por que a gente acredita nas mentiras que o mundo conta?

  1. Flávia Marques diz:

    As mentiras são repetidas tantas e tantas vezes que a gente acaba tomando como verdade e nem se dá ao trabalho de questionar. Eu me policio pra tentar não aceitar tudo de primeira, mas também sem me tornar uma pessoa insuportável. Hehehe.
    Adorei seu texto, seu blog, tudo! Escreva mais!
    Beijos!

    Liked by 1 person

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