Após o Anoitecer, e um recente love-affair com Haruki Murakami.

Conheci o autor japonês Haruki Murakami ao ler o seu lançamento mais recente conhecido no Brasil como “O Incolor Tsukuru Tazaki e seus Anos de Peregrinação“, e confesso que virei fã logo de cara.

O autor constrói personagens bem trabalhados, em meio à dramas sensíveis que ressoam facilmente dentro do nosso próprio universo. Entretanto, o que mais me chamou a atenção do trabalho de Murakami é a sua forte característica de traçar paralelos sutis à música ocidental, e de fazer com que ela se torne elemento intrínseco à história. É essa musicalidade que determina parte da cadência que o autor usa nas suas narrativas. Há também uma certa carga onírica, latente até, capaz de nos transportar para um mundo onde o fantástico pareça plausível.

Outro detalhe à parte, no caso de “O Incolor Tsukuru Tazaki e Seus Anos de Peregrinação”, é a diagramação do livro. Ainda não folheei a versão brasileira, mas a versão Hardcover em inglês é linda! Vejam só:

10941758_10155085904005177_1776592140_n10942777_10155085903880177_908241459_n

10937315_10155085903730177_1227233188_n10887698_10155085903450177_1331437328_n

Como eu fiquei curiosa para conhecer mais sobre o seu trabalho, inclui alguns dos seus títulos à minha listinha de presentes de Natal e, graças à minha querida e amada irmã, ganhei o meu segundo livro do autor, chamado “Após o Anoitecer” (After Dark), que eu li anteontem.

Nele, Haruki nos coloca na posição de observadores, com uma descrição distinta, que remete à linguagem dos roteiros de cinema, se referindo aos nossos olhos como câmeras, aludindo à pontos de vistas que nos transportam com clareza para o mundo de seus protagonistas.

10928020_10155085904585177_1490114180_n 10934481_10155085904285177_2086436481_n

A história se passa em uma única madrugada, com o relógio marcando a cronologia dos eventos ocorridos à medida que acompanhamos Mari – uma jovem diminutiva em aparência e personalidade – enquanto perambula pelas ruas da cidade de Tóquio, entrelaçando o seu destino com o de pessoas cujas trajetórias internas são similares a sua, definidos pela complexa busca pelo sentido da vida, a busca pelos mistérios do amor, e as incertezas que o futuro lhes reserva.

Paralelamente, observamos Eri – a irmã mais velha à qual Mari se refere constantemente como Branca de Neve, devido a sua beleza singular – enquanto dorme um sono profundo. Um certo dia, Eri declara à família que vai tirar um cochilo, e não acorda mais. Não está morta, tampouco em estado comatório. É como se Eri houvesse predeterminado que preferiria viver uma realidade alternativa a maior parte do tempo, transitando entre os dois universos em breves intervalos, longos o suficiente apenas para realizar as necessidades mais básicas a um ser humano, voltando a dormir logo em seguida.

“Após o Anoitecer” tem uma conclusão propositadamente vaga, o que sugere que talvez Murakami não seja uma leitura para todos, por mais deleitosa e fluida que seja. Propõe, sim, uma visão minuciosa e detalhada do mundo externo, mas é, também, um verdadeiro convite à análise do interior de cada um de seus personagens – especialmente o de Mari, no que concerne a sua relação com a irmã, com os pais, e a sua vida; enquanto parte de um Universo maior do que o seu mundinho imediato. E nós, como observadores, temos o privilégio de nos concentrar nos dilemas alheios e escapar dos nossos.

O que seria a literatura, afinal de contas, senão exatamente isso?

+ + +

“Fico pensando… Será que as lembranças não seriam o combustível de que os homens precisam para viver? Se essas lembranças são ou não realmente importantes para a manutenção da vida, não vem ao caso. Elas podem ser apenas um combustível. Seja uma propaganda de jornal, um livro filosófico, uma foto pornográfica ou um maço de notas de dez mil ienes, tudo isso não passa de papel na hora de queimar, não é mesmo? O fogo não queima tudo questionando ‘Nossa! Isto é Kant’ ou ‘Isto é a edição vespertina do Yomiuri’ ou ‘Puxa! Que peitos!’, concorda? Para o fogo, tudo não passa de papel. É a mesma coisa com a memória. As lembranças importantes, as mais ou menos importantes, ou até as que não têm importância nenhuma, tudo, indiscriminadamente, é apenas matéria de combustão.” – pág. 173

+ + +

A editora responsável pelas edições brasileiras é a Editora Objetiva, e os livros podem ser encontrados na Saraiva por um preço razoável. Pra comprar, basta clicar no título dos livros na resenha acima.

Advertisements

One thought on “Após o Anoitecer, e um recente love-affair com Haruki Murakami.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s